Antes de tudo que pudesse nos fazer chorar, antes de tudo que pudesse nos fazer desistir, eu mantive a esperança. Mantive a calma disfarçada em choro. Entre os soluços que rasgavam minha alma, eu cruzava os dedos para que nada que fosse dito pudesse me fazer desmoronar ainda mais. Dentro de mim guardo sonhos indecifráveis, guardo frases de efeito que nunca tive a oportunidade de usar, guardo um punhado de segredos, um precipício de medos inacabáveis, guardo também um pouco de ti. Não por inteiro, porque só posso guardar aquilo que tenho. Tenho dentro dos olhos um brilho opaco, uma retina esperando para ser polida e cuidada. Tenho nas mãos o encaixe que espera por teus dedos. Tenho na pele o arrepio profundo e intenso que só teus lábios podem provocar, e, dentro do peito, uma fenda obscura que insiste em manter-se viva. Me tornei um abismo de perguntas sem respostas. Um despenhadeiro de ilusões.
Mantive o sossego em meus sonhos, contemplei a calmaria nos teus abraços. Idealizei um garoto perfeito, desenhei em meus olhos filtros abençoados, os quais, abençoavam você. Tenho pra mim que você foi uma miragem divina dos meus sonhos interrompidos pela brutal realidade. Já tive a certeza de que encontrara um menino singular. Que de tão singular beirava a perfeição. Perfeição essa que de tão idealizada beirava o ilusório. Ilusão essa que de tão utópica beirava o enlouquecimento. Loucura essa que de tão real, enlouqueci. Enlouqueci por alguém que inventei, por alguém que me apaixonei sem perceber. E agora a cada passo dado um pouco de mim vai embora, vai embora por não saber mais em quem acreditar. Por não saber se vale a pena andar por todo o deserto a procura de um oásis, sem saber se o que vejo é real ou é miragem.
