
Enquanto a luz do quarto pisca devagar, meus olhos cansados descansam por segundos. Na escrivaninha, as folhas amarelas cheias de rabiscos dançam com o vento que entra pela janela aberta. Minhas costas doem enquanto meus pés balançam freneticamente num ritmo constante, e, sem que eu possa perceber continuo com o ziguezague por horas. Estralo meu punho esquerdo e levanto tão rápido que quase ouso cair. Meus olhos pesam, minhas pernas não me obedecem mais. Caminho lentamente até a varanda, onde as rosas vermelhas maltratadas gritam por socorro, mas sem pena finjo que não as vejo ali. Lá fora, bailarinos encantam multidões com seus rodopios perfeitamente sincronizados. Amigos se abraçam, casais se acariciam. Quase da pra ver os corações formados ao redor dos apaixonados. Continuo ali, anestesiada pela brisa fria e pelo cheiro de terra molhada. Esfrego os braços na esperança de me aquecer sozinha. Escuto no fim da rua gatos brigando, panelas batendo, pessoas chamando por atenção. Olho ao redor.
O mundo continua. Minha vida continua.
Saio da varanda com um pensamento inoportuno. Dos meus olhos saem lágrimas que não sei de onde vêm. Caminho depressa até o quarto. Sufoco a cabeça sob o travesseiro na esperança de não escutar meus pensamentos. Tentativa em vão. Olho ao redor. Estou completamente sozinha, na companhia de milhões de frases gravadas na memória dos livros de auto-ajuda que li e reli por toda a semana. Balanço a cabeça como quem espanta os pensamentos. Corro ao chuveiro, na expectativa de afogar meu choro, de lavar minha alma. Mais uma tentativa falha. Enxugo as lágrimas. Engulo o choro. Molhada deixo meus últimos passos marcados no chão, no percurso até a cozinha. Respiro fundo. Ligo o gás. Tranco a porta. Puxo uma cadeira. Adormeço sem perceber e não acordo mais.
O mundo continua. Minha vida não.
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