quarta-feira, 13 de junho de 2012

Prisioneiros de quem fomos.

Eu não tinha caneta, nem lápis, nem papel, nem nada que eu pudesse registrar aquele momento. Eu também não tinha coragem, nem vontade de dizer qualquer coisa que nos estragasse. Minhas mãos tremulas entregavam o meu nervosismo, e meu suor gelado gritava por um banho frio onde eu acordaria daquele velho sonho que de tão suave me dava tanto medo. A escuridão daquele quarto vazio me sufocava, da mesma forma que os olhos dele me sufocavam quando olhavam fixamente nos meus, sem desviar nem por um segundo, me julgando quase como se fossem o próprio purgatório. Eu não entendia muito bem o que os lábios dele pronunciavam, mas tentava com toda a paciência compreendê-lo. Ele falava muito rápido, como se implorasse para que aquele momento terminasse logo e só assim pudesse continuar vivendo em paz, sem mim. Sem a minha sombra que tanto lhe trazia lembranças ruins. Louco para desgrudar-se de mim, que tanto lhe fazia sentir-se mal por ser quem ele era agora. Mas eu segurava a mão dele, ofegante, e ele a escorregava para longe e limpava o suor gelado na calça jeans, azul e rasgada. Tão amarrotada quanto eu estava, tão suja feito o quanto ele se sentia por estar ali, conversando cheio de orgulho e também cheio de medo. Ele tentava se manter seguro, sem descrer de nenhuma palavra pronunciada. Mantinha a postura firme e sem rodeios dizia que não me amava mais. Sem sinceridade ele apontava os pés para mim, erguia a cabeça e mentia mais uma vez: por favor, vá embora. E como se eu concordasse, fui.

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